O MITO EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE

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L E I T E





Eufrásia Teixeira Leite aos 37 Anos

Pintura a óleo de Carolos Duran de 1887

Acervo do museu Casa da Hera





O MITO EUFRÁSIA TEIXEIRA LEITE



Eufrásia Teixeira Leite foi e é, certamente, o maior ícone da cidade de Vassouras. Seu nome é uma lenda memorável aclamado por todo o povo vassourense.


Uma mulher à frente do seu tempo!”

Quem visitar o Museu Casa da Hera ouvirá sistematicamente esta frase de seus guias e eles lhes indicarão como alguns sinais comprovantes dessa afirmação sua maneira rebelde de arrumar os cabelos, cortados curtos, a "la home", e de vestir roupas decotadas e sem mangas numa época em que as mulheres usavam roupas recatadas e cabelos longos e eram submissas aos maridos. Eufrásia estava à frente de seu tempo, porém, não apenas por esses detalhes! Ela destacou-se por ser uma mulher que fugiu dos padrões impostos por uma sociedade masculina e patriarcal. Personalidade forte e marcante, não sujeitou-se aos padrões da época em que a mulher, mesmo rica, era educada com recato e destinada ao casamento. Ela nunca se casou embora tenha experimentado um romance de paixão avassaladora com Joaquim Nabuco durante 14 anos. Destacou-se também por ser uma mulher de negócios, rica e emancipada, grande consumidora de alta moda e amiga da Princesa Isabel. Inclusive, Eufrásia recepcionou a Princesa Isabel em Paris quando a Família Real foi exilar-se na Cidade-Luz, deportada após a Proclamação da República.


Pequeno Histórico Familiar

 Nascida em berço de ouro, em Vassouras, em 1850, no apogeu do Ciclo do Café, filha de Joaquim José Teixeira Leite (este, filho do Barão de Itambé, não era fazendeiro mas um rico comissário de café) e Anna Esméria Correa e Castro (esta, filha do Barão do Campo Belo), logo, era neta de dois dos mais significativos barões da Cidade dos Barões. Seu pai era irmão de Francisco José Teixeira Leite, o Barão de Vassouras, logo, Eufrásia era também sobrinha do Barão de Vassouras. Neta pelo lado paterno de Francisco José Teixeira, o Barão de Itambé, e Francisca Bernardina do Sacramento Leite Ribeiro, e pelo lado materno de Laureano Correa e Castro, o Barão do Campo Belo, e Eufrásia Joaquina do Sacramento Andrade. Tinha uma irmã mais velha, Francisca Bernardina Teixeira Leite, que nasceu em 1845 e faleceu em 1899. Teve também um irmão que faleceu na infância. Eufrásia viveu durante 80 anos, vindo a falecer em Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1930.

O Barão do Campo Belo, seu avô materno, era proprietário da Fazenda Secretário e o Barão de Vassouras, seu tio, era proprietário da Fazenda Cachoeira Grande com dez mil hectares de extensão. Ambos eram grandes produtores de café e senhores de muitos escravos. Seu pai não produzia, mas agenciava a produção, financiava as lavouras e comercializava e exportava a produção, não apenas da família, e realizava outros negócios.

Francisca Bernardina, a irmã, sofreu um acidente na infância, supostamente caiu dum cavalo e fraturou a bacia o que a deixou mancando de uma perna e saiu de cena. O defeito físico dificultou-lhe a possibilidade de um casamento e ela ficou um tanto isolada do convívio social, voluntariamente ou por imposição da família, não se sabe. Eufrásia, por sua vez, teve uma formação aristocrática. Estudou na escola de moças de madame Grivet onde além da educação básica aprendeu boas maneiras e a falar francês. Como o único filho homem do casal Joaquim José e Anna Esméria faleceu na infância e Eufrásia sempre demonstrou espírito de independência e interesse pelos negócios da família ela foi também preparada pelo pai para lidar com finanças, fato incomum para a época, o que demonstra que Joaquim José era um visionário e também estava à frente de seu tempo.

Ficou órfã aos 22 anos e herdou, juntamente com sua irmã, a rica herança de 767:937$876 (767 milhões, 937.000 e 876 réis), ou, como se contava na época, 767 mil contos, 937.000 e 876 réis.


A herança constava de:

* Títulos da Dívida Pública do Empréstimo Nacional,

* Ações do Banco do Brasil,

* Depósitos em dinheiro ,

* Títulos de dívidas pessoais ,

* Uma grande casa no Rio de Janeiro,

* Uma casa em Vassouras, onde residia com a família (a Casa da Hera),

* 12 escravos.


Ainda jovens e solteiras as irmãs venderam títulos, ações, a casa no Rio de Janeiro, cobraram dívidas, alforriaram os escravos, transformaram o máximo que puderam em dinheiro vivo, deixaram dois escravos alforriados cuidando da casa de Vassouras e em 1873, contrariando todas as imposições e pressões da família, em particular do Barão de Vassouras, seu tio e provável tutor, partiram para morar em Paris. Na Cidade Luz, Eufrásia investiu na bolsa de valores, tornando-se a primeira mulher no mundo a adentrar o recinto da bolsa de valores de Paris, um reduto exclusivamente masculino, e assim multiplicou a sua fortuna e a de sua irmã. Uma mulher visionária, herdara não só valores financeiros, mas também o tino comercial de seu pai. Chegou a investir em 295 empresas espalhadas por 10 países, entre elas as gigantes Shell e Nestlé. Havia em sua residência o que costumava se chamar de um “telefone vermelho”, uma linha direta e exclusiva com a bolsa de valores.

No ano seguinte, 1874, as irmãs foram morar num hotel particular de cinco andares no Champs Elisé, próximo ao Arco do Triunfo, um local nobre até os dias de hoje.

Francisca Bernardina faleceu em Paris no ano de 1899, aos 54 anos, e como não tinha herdeiros sua parte da fortuna passou para a própria Eufrásia, que ficou duplamente mais rica.

Eufrásia faleceu no Rio de Janeiro em 1930, aos 80 anos, solteira, mas cercada de servidores fiéis. Deixou uma fortuna avaliada em 37:000$000 (37 milhões de contos de réis ou 37 bilhões de réis), dinheiro suficiente para comprar quase duas toneladas de ouro ao preço da época.

Numa reflexão modernista podemos avaliar: Se, comunicando-se apenas por telefone, com serviços ainda precários, e escritos a mão, essa mulher foi capaz de em pouco mais de 50 anos multiplicar mais de 40 vezes a herança recebida, do que não seria capaz dispondo dos modernos meios de comunicação de hoje, da globalização e da internet!


Romance com Joaquim Nabuco

Eufrásia encontrou-se com Joaquim Nabuco no Chimborazzo, navio em que viajavam para a França. Ela para fixar residência em Paris e ele a passeio, de passagem pela Cidade Luz a caminho da Inglaterra. Iniciaram um romance que tinha tudo para não dar certo, mas que durou 14 anos.

1 - Ele, ferrenho abolicionista. Ela de família escravocrata, embora tenha alforriado seus escravos.

2 - Ele tinha fama de mulherengo, era chamado de Quincas, o Belo, e foi cognominado de “O Bigode mais Cobiçado da Corte”. Ela, mulher emancipada, fina, mas recatada, ciumenta e possessiva.

3 - Ele pretendia fixar residência no Brasil e seguir carreira política. Ela não aceitava sair de Paris.

Desembarcaram noivos no destino. Ele mandou aprontar no Brasil os documentos necessários para o casamento, mas quando esses ficaram prontos e chegaram à Europa o noivado já estava rompido.

Quando Nabuco retornou ao Brasil o namoro continuou por cartas. Quanto ao rompimento definitivo afirmam alguns historiadores que aqueles itens apontados não foram os principais motivos que impediram o casamento, mas uma reação machista por parte dele que, passando por dificuldades financeiras, ofendeu-se com a oferta de ajuda em dinheiro por parte dela. “Ora, onde já se viu, naquela época, homem aceitar dinheiro de mulher?!”. Outros, porém, afirmam que o real motivo foi que ele não aceitou casar-se com separação de bens. Podemos, porém, mirabolar que, sendo ela o que se chamaria hoje de uma “mulher cabeça” e ele um frívolo dândi numa sociedade onde o marido era o provedor e administrador da família, casando-se a administração da fortuna caberia a ele e certamente ela temia por sua dilapidação.


Nota: Frívolo dandi - Dandi era o título dado aos jovens da época, ricos, bem apessoados, que levavam a vida “na valsa” sem compromissos ou responsabilidades. Joaquim Nabuco não era rico mas arranjado, seu pai, Nabuco de Araújo, era ministro do império o que lhe garantia algum status e livre trânsito na corte.


As cartas enviadas por Nabuco para Eufrásia foram por orientação dela quando em vida, colocadas em seu ataúde, já as que ela enviou para ele estão guardadas no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em Pernambuco, constituindo-se em valioso documento histórico.

Eufrásia remeteu sua última carta para Joaquim Nabuco em 1887 e dois anos depois, em 1889, ele casou-se com Evelina Torres Soares Ribeiro. Eufrásia jamais se casou.

Eufrásia voltou definitivamente para o Brasil em 1926, passou um tempo reclusa na Casa da Hera e depois foi morar em Copacabana, no Rio de Janeiro, onde escreveu seu testamento e veio a falecer em 1930, aos 80 anos, solteira e cercada de servidores fiéis. Pretendia ainda voltar a Paris, mas contraiu uma infecção renal e foi desaconselhada por seus médicos a empreender a cansativa viagem de navio. Ainda tentou autorização dos médicos parisienses enviando-lhes resultados de exames, mas também esses desaconselharam fazer uma viagem longa e sofrida, uma travessia oceânica sujeita a riscos de tempestades.

Nos últimos anos vivia discretamente recolhendo-se na Casa da Hera, em Vassouras, ou no seu apartamento de Copacabana. Em Vassouras, para garantir sua privacidade, comprou o sítio vizinho à Casa da Hera pertencente ao senhor Calvet. Nesse espaço está instalada hoje a Fundação Pestalozzi.

Confessou sua mucama, Cecília, que apesar de toda a glória experimentada na vida, nos últimos tempos Eufrásia mostrava-se infeliz, talvez deprimida pela solidão matrimonial.

Ao falecer Eufrásia deixou 30.000 ações de 297 empresas em 10 países. Possuía ações de minas de ouro, estradas de ferro, títulos e bens, na Rússia, Alemanha, França, Bélgica, Japão, Egito, Romênia, Estados Unidos, Canadá e Chile. O espólio de seus bens tinha um valor aproximado de 37 milhões de contos de reis (37 bilhões de reais em moeda de hoje), o equivalente a quase duas toneladas de ouro na época, a casa de Paris no valor estimado de dois milhões de francos na época, hoje valendo mais de 10 milhões de francos. Um loteamento em Copacabana com 49 terrenos, adquiridos em idade já avançada após seu retorno ao Brasil, a Casa da Hera, em Vassouras, com seus móveis, lustres, piano de cauda longa Herman Hess, prataria e utensílios domésticos avaliados em 96:700$000 (noventa e seis contos e 700 mil réis) e a chácara, ampliada com a aquisição do sítio do Dr. Calvet, avaliada em 44:500$000 (quarenta e quatro contos e quinhentos mil réis).

Quase toda sua fortuna ela destinou para a Irmandade do Sagrado Coração de Jesus em Vassouras, Santa Casa de Misericórdia em Vassouras e Colégio Santa Rosa em Niterói e uma parcela distribuiu entre aqueles que a serviram em vida, não esquecendo sequer os pobres de Vassouras e os da Rua Bassano, onde morava em Paris.

Os padres Salesianos do Colégio Santa Rosa recusaram-se a receber seu quinhão e os recursos foram redestinados para a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras, conforme rezava o testamento: “que qualquer importância que não fosse aceita pelo destinatário seria automaticamente revertida para a Santa Casa de Misericórdia de Vassouras”.

No testamento, porém, fez algumas exigências e impôs algumas condições:

1ª - A de que fosse preservada a Casa da Hera com todo seu acervo mobiliário, prataria, lustres, tudo enfim.

2ª - A de que fosse construído e posto a funcionar:

* Um colégio para meninas

* Um colégio para meninos

* Um hospital para a população pobre de Vassouras.


Graças à recomendação testamentária a Casa da Hera hoje está preservada com toda a sua originalidade, está tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Arquitetônico Nacional, IPHAN, e funcionando como memorial da família Teixeira Leite administrada pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). É aberta à visitação pública com visita guiada gratuita, de terça a sexta-feira de 10:00 às 17:00 horas e aos sábados, domingos e feriados de 13:00 às 17:00 horas. A entrada é franca e dá acesso ao interior da casa e ao passeio pela chácara que a circunda, onde se destacam: o túnel de bambu, ou túnel do amor, palmeiras imperiais centenárias e outras árvores igualmente centenárias, o terreiro de Manoel Congo e Mariana Crioula e espaços para lazer e piquenique. Às segundas feiras a casa permanece fechada, mas o acesso à chácara é liberado.

Nas instalações onde funcionou o Colégio dos Meninos funcionava até bem pouco tempo uma unidade do SENAI o qual encerrou suas atividades em 2017. Nas instalações do Colégio Dr. Joaquim José Teixeira Leite, depois Colégio Regina Coeli, o Colégio das Meninas, funcionava o PIM, Projeto de Integreção pela Música, um projeto voltado para crianças, adolescentes, jovens e idosos interessados em aprender a tocar algum instrumento. Atualmente o PIM está instalado no Palácio do Barão de Massambará.

Em 1935 a provedoria da Santa Casa de Misericórdia adquiriu a Chácara das Palmeiras e no espaço construiu o hospital que leva o nome da benemérita: Hospital Eufrásia Teixeira Leite e para lá transferiu a Santa Casa de Misericórdia. No antigo prédio da Santa Casa foi instalado um abrigo para idosos, o Lar Barão, mas com a deterioração do prédio causada por falta de manutenção e um incêndio lá ocorrido os idosos foram transferidos para as novas instalações do Hospital Eufrásia Teixeira Leite.

O prédio do Lar Barão não fazia parte do testamento de Eufrásia, fora construído pelo Barão de Tinguá para abrigar um hospital, o Hospital Nossa Senhora da Conceição e as instalações da Santa Casa de Misericórdia. O prédio foi vendido ao empresário Ronaldo César Coelho, proprietário da Fazenda São Fernandes, em 2019 e foi reformado para abrigar o Museu Vila de Vassouras.


A Religiosidade de Eufrásia

Mesmo aristocrata Eufrásia demonstrava bondade de coração. Desde jovem visitava as capelas afastadas do centro da cidade e contactava com a população pobre. Sua religiosidade ficou expressa com o pedido feito no testamento para que as religiosas beneficiadas celebrassem missas nos dias da sua morte e das mortes de seu pai, sua mãe, sua irmã e dos seus avós maternos e no dia de Finados por ela e seus parentes mais próximos, todos os anos. Não sei dizer se essas exigências ainda prevalecem e são atendidas ainda nos dias de hoje.

Todos os bens destinados às ordens religiosas eram gravados com a cláusula de inalienabilidade absoluta e insubrogabilidade, isto é, a certeza de que não haveria venda nem transferência, cláusulas que se perderam com o tempo, pois não foram rigorosamente cumpridas. Era firmado também no testamento que na falta destes herdeiros ou recusa de algum destinatário seus legados e seus rendimentos passariam para a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Vassouras, mantendo-se as mesmas cláusulas de inalienabilidade absoluta e insubrogabilidade. Na prática, esta segunda exigência aconteceu quando os padres salesianos do Colégio Santa Rosa de Niterói não aceitaram a sua parte da herança e a Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Vassouras assumiu esse legado. Também foram contemplados no testamento seus empregados da Chácara da Hera, os pretos Herculano e Francisco Vicente que permaneceriam morando vitaliciamente nas dependências da Casa da Hera, cuidando ou não de sua conservação e ainda recebendo vitaliciamente a mesada de 50 reis e o direito de usufruir das frutas da chácara, para consumo próprio ou para venda. Além de todas as doações à Santa Casa de Misericórdia caberia-lhe ainda 100 contos de réis convertidos em título da dívida pública com rendimento anual de 5%, isto é, 5 contos de réis por ano, para zelar pelos jazigos da família.


Hospital Eufrásia Teixeira Leite

Em 1935 foi adquirida a Chácara das Palmeiras e em 11/06/1937 foi lançada a pedra fundamental para a construção do hospital que leva o nome de sua benemérita, Eufrásia Teixeira Leite, o qual foi prontamente inaugurado em 06/07/1941. Hoje o hospital funciona de forma mista, isto é, com atendimentos particulares e conveniados com o SUS.

A ligação de Eufrásia com a Santa Casa de Misericórdia era coisa antiga, o que foi testemunhado pelo desembargador Ataíde Parreiras ao declarar ao Diário Carioca em 13/07/1941: “. . . "em abril de 1926, ao despedir-me da Exma. Sra. Eufrásia ela declarou-me: Dr. Ataíde, hei de mostrar algum dia que não esquecerei a nossa Santa Casa!”


A Personalidade

 Muitos consideram Eufrásia Teixeira Leite como a primeira feminista do Brasil, feminista na acepção da palavra, não rotulada como tal, por sua personalidade forte, liberal, inteligência, determinação, rebeldia social, emancipada, financista racional que a despeito de 14 anos de namoro com Joaquim Nabuco, a maioria desses anos por correspondência, renunciou ao casamento e à maternidade após o rompimento das relações amorosas com o Quincas, o Belo, como Nabuco era conhecido nos meios sociais por seu porte altivo e fineza. Vestia-se de modo irreverente e usava cabelos a la home. Numa época em que as mulheres eram recatadas, educadas para o casamento e a submissão aos maridos, usavam cabelos longos e roupas sóbrias, Eufrásia impôs sua independência, cortou os cabelos à moda francesa (a la home) e foi grande consumidora de alta-costura e, rebeldia e escândalo para a época, usava roupas decotadas que lhe evidenciavam os braços, os ombros, as costas e o colo, conforme se vê em seu retrato pintado a óleo por Calorus Duran em 1887 quando contava com 37 anos e que está em exposição no Museu Casa da Hera.

Ela era autoritária, ou pelo menos estava acostumada à obediência alheia, segundo testemunhou sua mucama Cecília. Enquanto viva e residia em Paris, controlava de longe o caseiro Manoel Rabelo, com instruções detalhadas para não se esquecer de pôr remédio nos livros, cuidar do jardim e expulsar intrusos. Foi ele, o caseiro Manoel Rabelo, que sugeriu e solicitou autorização para plantar a erva chamada hera ao redor da casa. Permissão concedida a casa foi toda cercada pela plantinha que surpreendentemente se alastrou pelas paredes e hoje reveste todo o imóvel conferindo-lhe o título de Casa da Hera.

Antes de morrer, procurou dar um destino definitivo à casa de seus pais, “com os móveis, a biblioteca, a roupa branca e a outra”. Pagava regiamente pelos serviços que cobrava com rigor. Ao ex-escravo Ramiro Bonfim, legou uma casa “na Ladeira da Misericórdia”. À Cecília Bonfim, filha de Ramiro e sua mucama e afilhada, deixou 30 contos de réis em apólices. Aos pobres de Vassouras, 20 contos, em espécie. Aos mendigos da rua Bassano, 20 mil francos. Não se esqueceu de estabelecer que, até morrer, “os pretos” Herculano e Francisco Vicente morariam na chácara, com uma renda de 50 réis mensais. E que as frutas do pomar estariam à disposição, para vender “ou gozar”.


Nota: Na realidade, quando Eufrásia exigiu em testamento a preservação da Casa da Hera não foi por vaidade, para preservar a sua memória, mas a de sua família, notadamente a de seu pai: Joaquim José Teixeira Leite a quem era por demais afeiçoada.


Foi graças a essas providências que ela conseguiu salvar os únicos atestados bem conservados de sua vontade. A Chácara com a Casa da Hera, tombada e convertida em museu, com os 32 cômodos e as 69 janelas, parece parada no século XIX. É verdade que seus 240 mil metros quadrados estão hoje reduzidos a apenas 33 mil. Em 1952 o Ministro Raul Fernandes providenciou seu tombamento, o que acabaria por incorporá-la ao IPHAN. Foi sua sorte! Ficaram na biblioteca os cerca de 1.000 livros do comendador Teixeira Leite e os mais de 3.000 exemplares de revistas e jornais, muitos deles estrangeiros. O quarto de costura guarda vestidos cujas medidas atestam o desvio na coluna de sua irmã Francisca Bernardina, consequência da fratura na bacia em razão da queda de um cavalo. Desabitada, a mansão resistiu às mudanças de gosto e hábitos higiênicos adotados pela elite brasileira desde sua construção, há mais de cem anos atrás. Segundo o arquiteto Augusto da Silva Telles, autoridade em residências senhoriais do vale do Paraíba, ela é “a única que se apresenta com o tratamento original de seu interior e mobiliário autêntico”.



Eufrásia aos 80 Anos

Foto do Obituário


Livros:

Alguns livros foram escritos por biógrafos, pesquisadores, e admiradores da personalidade e da vida de Eufrásia Teixeira Leite, entre eles destacamos:

* Mundos de Eufrásia (Cláudia Lage)

* A Sinhazinha Emancipada (Miridan Britto Falci e Hildete Pereira de Melo)

* O Destino de Uma Herança (Miridan Britto Falci e Hildete Pereira de Melo)

Eufrásia e Nabuco (Neusa Fernandes)

* A Senhora e a Casa (Eneida Queiroz)

* Um Mapa Todo Seu (Ana Maria Machado)


Bibliografia

A Sinhazinha Emancipada (Miridan Britto Falci e Hildete Pereira de Melo)

Um Mapa Todo Seu (Ana Maria Machado)

Eufrásia Teixeira Leite - (Wikipedia, a enciclopédia livre) (wikipwdia.org)

Eufrásia – A Mulher que Recusou o Papel de Sinhá (ensinarhistoriajoelza.com.br)





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